quarta-feira, 25 de novembro de 2009

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Ba:O rapto da menina dourada



Ba, a menina dourada, com sua principal aliada, sua mãe.

A menina dourada é uma garotinha de 19 anos com extraordinários poderes, que gosta de desenhar, ouvir música, ler, tomar banho de cachoeira, sorvete de chocomenta, zoar com os amigos, namorar, e que personifica o bem na face da Terra. 
Ela é raptada pelo infame representante das forças do mal, o agressivo Conde Lin-foma não-Hodgkin, que a aprisiona em uma bolha que a mantém isolada de seus amigos, de seus estudos e de todas as coisas interessantes que uma garota de sua idade mais gosta. E, ainda por cima, como castigo por ela não se submeter às suas torpes intenções – invadir seu corpo, imaginem ! – entre outras covardias, rouba-lhe os lindos cabelos e o sentido do paladar, impedindo-a de saborear seu prato predileto, a lasanha de sua mãe. 

Por causa disso, em um breve e raro momento de fraqueza, acuada e indefesa, chegou mesmo a comentar, entre a frustração e o lamento: Outro dia minha mãe fez meu prato favorito, lasanha, e poxa, eu queria ter comido lasanha, mas eu comi um bloco de anotações.”
Mas como o de Amélie Poulain*, o destino de Bá - é assim que Barbara, a menina dourada é conhecida por seus aliados - sem dúvida, era - é ser feliz!
(* Personagem central do filme poético "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain" ["Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain"], com direção de Jean-Pierre Jeunet e música belíssima de Yann Tiersen.)

Durante todo o tempo em que ficou prisioneira na bolha nunca parou de exercitar suas habilidades. Nunca desistiu de acreditar na liberdade, na vitória, fortalecendo sua fé, seu espírito, elevando a sua coragem e a sua esperança a níveis nunca antes imaginados. Também não permitiu que sua mente fosse invadida e ocupada por pensamentos negativos, que são os aliados do infame Conde Lin-foma.


“Os dias estão cada vez mais próximos, surge um friozinho na barriga, uma ansiedade descontrolada que me dá noites de insônia.”

E assim, várias vezes se surpreendeu a repensar sua vida, seus valores, na importância de coisas simples, normalmente ignoradas quando sufocadas pela rotina “normal” e incorporadas ao corre-corre do nosso dia-a-dia, como “ar, areia, grama, risos, jogos, carecas, panos, calor, muito calor, abraços, música, pizza, estrelas, nuvens, sol, pôr-do-sol, gente, livros, sorvete de chocomenta, caminhada, lagoa, céu, lua,...”. Amadureceu mais um pouco para as questões do autoconhecimento e começou a se perguntar: “Quem eu era antes? Quais eram as minhas prioridades? Meus desejos? Como eu levava a vida? E agora? E depois? Será que alguém consegue saber a importância que isso tudo teve na minha vida?”

E então se deu conta de que ela, apenas ela seria capaz de responder àquelas perguntas. E percebeu também que se conseguisse se livrar de tudo aquilo seria uma pessoa melhor e mais forte que antes. Mais preparada para a vida e suas surpresas indesejáveis.  E de todas as mudanças significativas a que mais lhe pareceu aparente foi a da paciência, o saber esperar. “Deus sabe o quanto eu tinha pressa, pressa de acontecer, de ter, de fazer. E como o câncer me fez conhecer o depois, e o mais tarde. Entender que todas as situações, sejam elas boas ou ruins têm sim um ladinho bom. Ninguém garante que é fácil, mas as provas estão aí justamente pra nos mudar, nos fazer repensar e nos tornar um pouquinho melhores do que já somos. Às vezes uma situação aparece porque você precisa de um chacoalhão!... E essa experiência é a coisa mais sua que vai existir, ninguém vai poder entender completamente o que foi passar por tudo isso.”

Começou então a planejar com seus aliados a sua estratégia para a vitória e a aceitar com mais paciência e resignação todas as drogas que eles lhe aplicavam dolorosamente nas veias, chamadas quimioterapia, e que lhe causavam tanto sofrimento físico.

Descobriu numa passagem secreta que já conhecia há muito tempo, chamada internet, a possibilidade de se comunicar com outras pessoas também aprisionadas, como ela, e que também lutavam contra as hostes do infame Conde Lin-foma. Juntou-se a elas e, junto com os parentes e os amigos que já tinha como aliados começou a articular uma resistência organizada. Trocaram experiências que serviam como armas, mas, sobretudo se fortificavam pela energia irradiada pela arma mais poderosa de todas elas, a do amor solidário.

Finalmente chegou o grande dia. Nem precisou fugir para alcançar a liberdade: ela e seus aliados enfrentaram e derrotaram seu algoz e carcereiro - já bem enfraquecido das batalhas anteriores - na última e famosa batalha realizada em junho de 2009. Na verdade todos sabíamos, desde o início, que essa história não poderia ter um final diferente.



“O melhor de tudo é que eu to amando tanto meu cabelo!”

E livre finalmente, ela declara:
“Agora é continuar minha vida, mais forte do que nunca, com uma visão de mundo que só quem passou por isso pode entender. Agora é recomeçar, mais viva do que nunca.”
“Me sinto imensamente grata por ter passado por essa experiência de vida. E apesar de não me reconhecer quando olho no espelho,13 quilos mais gorda, pálida e careca, me vem uma ponta de felicidade interminável dentro do meu coração dizendo: Caramba! Acabou...! Você venceu!”

Tudo bem, Bá, nós também te amamos.

Conheçam toda a aventura vitoriosa de Barbara narrada em detalhes por ela mesma, em seu blog. O link está logo aí ao lado,
A Estrutura da Bolha de Sabão



7 Comentários:

Thati Guimaraes Gobeth disse...

Passei a acompanhar as aventuras da Ba contra o Conde Lin-foma a pouco tempo e aprendi a admirá-la bem rápido. Ela é encantadora e de uma gentileza formidável.
Tudo de bom pra você Ba!!!

cinthia35 disse...

Que exemplo de vida temos na Barbara...
Nos ajuda a refletir o quanto super valorizamos "problemas" tão pequenos.

Agradeço a você Daniel, que através de sua passagem por este obstáculo também tem nos mostrado o quanto a vida é mais importante do realmente imaginamos.
Valeu demais amigo!!!!
Me orgulho demais em poder chama-lo de AMIGO!!!!

JAZZMAN disse...

Ela é muito mais poderosa que aquele garotinho chines do filme com o Eddie Murphy. Já visitei o blog dela pelo link do post e vi que ela escreve bem maneira. Inda to nos inicios.

tintinlupo disse...

Isso pode dar uma puta HQ, rapaz!! O argumento já está até pronto!!Será que ela se importaria de ser uma heroína retratada com esses 13 kg que engordou?

Anônimo disse...

Nunca deixo de me surpreender com a capacidade do ser humano de superar dificuldades.Acho que nunca vou deixar. Essa menina é um exemplo de luta e de serenidade ao mesmo tempo, eu já conhecia o blog dela e acho que ela merece o bonito tratamento que vc deu à sua história.obrigada por publicar.

Juju disse...

O câncer éuma doença devastadora mas que ja fez muitos progressos para sua cura, principalmente com o diagnóstico precoce.Hoje é o Dia Nacional de Combare ao câncer e eu parabenizo Barbara e todos os que já se defrontaram com a doença.Gostei da sua analogia, e que a luz dourada dessa garota ilumine o campo de batalha de todos aqueles que ainda estão na luta ;}

Alfredo Moura Palha disse...

Meu pai tinha 68 qdo seu câncer foi diagnosticado, em 2002. Ele luta bravamente até hoje e é um exemplo de vida para toda a família. Barbarao o é para todos nós.Abc