Estou em Belém, depois de
uma ausência de cinco anos. É a primeira vez que volto depois desse diagnóstico
que balançou a minha vidinha. E sempre que volto renovo minha fé nos valores
mais primordiais, mais básicos, mais nobres do espírito humano. E por que
deveria ser diferente dessa vez?
Depois de muito viajar e de conhecer
uma boa parte da superfície desse globo azul onde viajamos muitas vezes
insensíveis em velocidade vertiginosa pelo espaço e pelo tempo em direção ao
desconhecido onde nos abismamos, cada vez mais aumenta minha convicção de que a
maior busca está dentro de nós mesmos, a busca do autoconhecimento que nos
aproxima cada vez mais da Verdade e do verdadeiro sentido da Vida que tanto
procuramos apreender, muitas das vezes pelas vias as mais transversas.
Para mim esta é a melhor
época do ano para se estar em Belém. Estamos hospedados no apartamento de Vera,
uma de minhas irmãs,Sandrinha e eu, e daqui nesse momento posso ver
e ouvir as manifestações de louvor, amor e devoção que há séculos este povo acolhedor
e religioso dirige a Virgem de Nazaré nesse mês de outubro, desde o ano de 1700
quando a pequena imagem da Santa foi encontrada pelo caboclo Plácido José de
Souza às margens do igarapé Murutucú, onde hoje se encontra a Basílica
Santuário.
São 19:30 h e nesse momento a av. Nazaré está tomada por um mar (Mar-Maria,
Mar Amniótico Original de Amor e Luz) humano para homenagear Maria, Maria de
Nazaré, num espetáculo bonito à luz de velas. É a procissão da Trasladação da
imagem da Santa para a Catedral da Sé, de onde ela sairá amanhã em romaria. Emocionante!
Ontem minha mãe completou
noventa anos e nós nos reunimos pra celebrar e agradecer. Agradecer por tudo. A
ela e a Nossa Senhora de Nazaré por tê-la escolhido pra ser a nossa mãezinha aqui
na Terra. Agradecer toda a vida de dedicação que ela tem devotado a todos nós,
que viemos dela. Seis filhos, todos apaixonados por ela, não sei quantos netos
nem quantos bisnetos. Agradecer por tudo que ela nos ensinou e continua nos ensinando
nessa fase de sua vida. E estavam todos lá dando seu depoimento e demonstrando
seu reconhecimento, seu amor, sua gratidão.
Ela estava linda, a
matriarca, como sempre soube estar, no seu vestido azul-clarinho e quase
inabalável diante de tanta demonstração de carinho. Recebeu tudo com a alegria serena
de quem sabe que cumpriu seu papel fundamental para a formação do ser humano
que ela contribuiu para trazer ao mundo, seu papel de mãe que se multiplicou
como avó e bisavó. Seu papel de educadora, de provedora do alimento que nutre o
corpo, mas também, e principalmente, do alimento que nutre o espírito.
Mãezinha, dona “Riso”, nestes
dias em que a Mãe de todos nós passeia descalça pelas ruas de Belém espalhando
seu perfume inconfundível que redime e que vivifica aos que humildemente sabem ver e ouvir com os sentidos
superiores da Esperança, do Amor e da Fé, eu te agradeço e te beijo ternamente com
o coração aberto do filho paraense que sempre volta e sempre voltará para te beijar
e a este Manto Sagrado que a tudo renova com seu toque de Vida.
Já
acreditei em muitas mentiras, mas há uma à qual sempre fui imune: aquela que
celebra a juventude como uma época de rebeldia, de independência, de amor à
liberdade. Não dei crédito a essa patacoada nem mesmo quando, jovem eu próprio,
ela me lisonjeava. Bem ao contrário, desde cedo me impressionaram muito fundo,
na conduta de meus companheiros de geração, o espírito de rebanho, o temor do
isolamento, a subserviência à voz corrente, a ânsia de se sentir iguais e
aceitos pela maioria cínica e autoritária, a disposição de tudo ceder, de tudo
prostituir em troca de uma vaguinha de neófito no grupo dos sujeitos bacanas.
O
jovem, é verdade, rebela-se muitas vezes contra pais e professores, mas é
porque sabe que no fundo estão do seu lado e jamais revidarão suas agressões
com força total. A luta contra os pais é um teatrinho, um jogo de cartas
marcadas no qual um dos contendores luta para vencer e o outro para ajudá-lo a
vencer.
Muito
diferente é a situação do jovem ante os da sua geração, que não têm para com
ele as complacências do paternalismo. Longe de protegê-lo, essa massa
barulhenta e cínica recebe o novato com desprezo e hostilidade que lhe mostram,
desde logo, a necessidade de obedecer para não sucumbir. É dos companheiros de
geração que ele obtém a primeira experiência de um confronto com o poder, sem a mediação
daquela diferença de idade que dá direito a descontos e atenuações. É o reino
dos mais fortes, dos mais descarados, que se afirma com toda a sua crueza sobre
a fragilidade do recém-chegado, impondo-lhe provações e exigências antes de
aceitá-lo como membro da horda. A quantos ritos, a quantos protocolos, a
quantas humilhações não se submete o postulante, para escapar à perspectiva
aterrorizante da rejeição, do isolamento. Para não ser devolvido, impotente e
humilhado, aos braços da mãe, ele tem de ser aprovado num exame que lhe exige
menos coragem do que flexibilidade, capacidade de amoldar-se aos caprichos da
maioria - a supressão, em suma, da personalidade.
É
verdade que ele se submete a isso com prazer, com ânsia de apaixonado que tudo
fará em troca de um sorriso condescendente. A massa de companheiros de geração
representa, afinal, o mundo, o mundo grande no qual o adolescente, emergindo do
pequeno mundo doméstico, pede ingresso. E o ingresso custa caro. O candidato
deve, desde logo, aprender todo um vocabulário de palavras, de gestos, de
olhares, todo um código de senhas e símbolos: a mínima falha expõe ao ridículo,
e a regra do jogo é em geral implícita, devendo ser adivinhada antes de
conhecida, macaqueada antes de adivinhada. O modo de aprendizado é sempre a
imitação - literal, servil e sem questionamentos. O ingresso no mundo juvenil
dispara a toda velocidade o motor de todos os desvarios humanos: o desejo mimético de que
fala René Girard, onde o objeto não atrai por suas qualidades intrínsecas, mas
por ser simultaneamente desejado por um outro, que Girard denomina o mediador.
Não
é de espantar que o rito de ingresso no grupo, custando tão alto investimento
psicológico, termine por levar o jovem à completa exasperação impedindo-o,
simultaneamente, de despejar seu ressentimento de volta sobre o grupo mesmo,
objeto de amor que se sonega e por isto tem o dom de transfigurar cada impulso
de rancor em novo investimento amoroso. Para onde, então, se voltará o rancor,
senão para a direção menos perigosa? A família surge como o bode expiatório
providencial de todos os fracassos do jovem no seu rito de passagem. Se ele não
logra ser aceito no grupo, a última coisa que lhe há de ocorrer será atribuir a
culpa de sua situação à fatuidade e ao cinismo dos que o rejeitam. Numa cruel
inversão, a culpa de suas humilhações não será atribuída àqueles que se recusam
a aceitá-lo como homem, mas àqueles que o aceitam como criança. A família, que
tudo lhe deu, pagará pelas maldades da horda que tudo lhe exige.
Eis
a que se resume a famosa rebeldia do adolescente: amor ao mais forte que o
despreza, desprezo pelo mais fraco que o ama.
Todas
as mutações se dão na penumbra, na zona indistinta entre o ser e o não-ser: o
jovem, em trânsito entre o que já não é e o que não é ainda, é, por fatalidade,
inconsciente de si, de sua situação, das autorias e das culpas de quanto se
passa dentro e em torno dele. Seus julgamentos são quase sempre a inversão
completa da realidade. Eis o motivo pelo qual a juventude, desde que a covardia
dos adultos lhe deu autoridade para mandar e desmandar, esteve sempre na
vanguarda de todos os erros e perversidades do século: nazismo, fascismo,
comunismo, seitas pseudo-religiosas, consumo de drogas. São sempre os jovens
que estão um passo à frente na direção do pior.
Um
mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e
cansado, que já não tem futuro algum.
Olavo
de Carvalho, autor do texto acima, “O jovem Imbecil”, é filósofo, jornalista,
professor, escritor, ensaísta e um dos mais importantes intelectuais
brasileiros da atualidade. Possui dois websites: www.olavodecarvalho.org e www.seminariodefilosofia.org e é editor do site
de notícias MídiaSemMáscara (www.midiasemmascara.org).
É claro que além dos elementos desta
sórdida e cruel sociologia onde o jovem é vítima e algoz, tão corajosa e lucidamente
exposta por Olavo de Carvalho, como uma fratura no esqueleto de uma sociedade
onde o cinismo se impõe como uma instituição amoral que mascara a realidade ao
invés de revelar para buscar soluções, existem outros componentes.
O que não se leva em conta ao apontar
o dedo da culpa para o cruel relógio das impossibilidades é que adultos, infelizmente, não se
transformam prodigiosamente em seres perfeitos assim, de uma hora para a outra,
tão logo o curso de suas vidas os transportem para a condição de pai, de mãe,
impondo-lhes assim o dever sagrado e a responsabilidade de desempenhar da
melhor maneira possível estes papeis sociais.
Além disso, considere-se que cada Ser
é único, um microcosmo complexo a ser desvendado à medida que sua consciência
desperta. E, por isso mesmo, não existem regras nem fórmulas mágicas no
processo da educação, esta responsabilidade intransferível. É imprescindível neste processo que
nós, pais, nos auto-avaliemos, (o autoengano causa-nos a sensação de que fizemos
ou que fazemos o que podíamos e o que podemos), além de termos sempre em mente
que a luta não dura um dia somente; ela continua por tempo indeterminado, e o autoconhecimento
e a persistência serão os elementos que poderão assegurar melhor resultado.
As escolas não conseguem realizar o
trabalho tipicamente familiar, que requer proximidade, afetividade, carinho,
confiança, tempo e autoridade, que
não deve ser confundida com o autoritarismo
que atrofia a personalidade, contribuindo para a (de)formação de indivíduos
imaturos emocionalmente.É como se pais e filhos (e a meu ver
a consangüinidade não é condição sine qua
non nesta relação) jogassem um jogo no escuro cujas regras não estão
definidas e do qual não se tem tampouco experiência prévia.
Eu mesmo sou pai de quatro filhos
naturais e cada um deles é uma experiência única, singular. E com o advento da
psicologia reducionista Freudiana, da Viena
de finais do século XIX, toda a culpa pela
inaptidão, angústia e desajuste social passaram a ser colocados sobre os ombros
exclusivamente dos pais. Felizmente, os conceitos mais recentes (e mais
científicos a meu ver) de inteligência
emocional vêm relegando toda essa tralha edipiana sexualóide inventada ao lugar que ela merece, o
esquecimento generoso. Alias, acho que Freud tinha um perfil psicológico mais
para maníaco sexual que para livre pensador.
Sim, porque Freud inventou, e
não descobriu o seu conceito de
Complexo de Édipo, de família edipiana, que serve de base para seus postulados
de psicanálise. E que diferença estabelecer entre "inventar" e
"descobrir"? Segundo os dicionários, o primeiro termo denota a criação
de algo novo, que não existia previamente. Assim, se inventa as nanopartículas,
mas não o genoma do câncer. Já o segundo faz referência ao levantamento de um
véu que encobria algo pré-existente. Descobre-se aquele genoma, mas não as nanopartículas.
Que os pais influenciam os filhos é
uma conseqüência óbvia. Mas estudos desenvolvidos pela pesquisadora Anette
Roest, que procurou diferenciar, num período de dez anos as similaridades entre
pais e filhos na transmissão de valores, revelaram que os filhos não recebem
essa influência dos pais de maneira passiva, é uma relação recíproca. Que os
familiares, através da convivência, automaticamente influenciam uns aos outros,
em um sistema de reciprocidade que é fator de socialização. Isso sigifica que
não são exclusivamente os pais que moldam a personalidade dos filhos, sendo os
únicos responsáveis por seus êxitos e fracassos. E pelo fato de a família não
estar isolada da sociedade, os filhos também trazem contribuição de forma
independente.
Assistam o drama familiar psicológico
que se desenrola no filme Vidas Amargas
(East of Eden), a obra-prima dirigida pelo genial Elia Kazan, adaptação do
romance semi-biográfico de John Steinbeck e com o legendário e falecido ator
James Dean no papel principal. Lá encontrarão entrelaçados quase todos estes
elementos, sem maniqueísmos ingênuos, sem “bons” nem “maus”, simplesmente seres
humanos compartilhando suas angústias, equívocos e acertos nesta experiência
insólita e imprevisível que é a vida, na busca pela evolução.
A propósito de seu comentário no blog, do outro lado do mundo:
Conheci na vida poucos como você, que perseguem seus sonhos com tamanha obstinação a lugares tão distantes e tão além das limitações que a nossa materialidade possa nos impor.
Contudo me parece que para os ainda jovens isso constitui a contrapartida da aventura, um elemento a mais, romanesco no conjunto de desafios a enfrentar e a superar. Esse sempre foi, com efeito, o meu estado de espírito.
O mais curioso é que tenhamos começado, cada um seguindo o seu caminho e premido por circunstâncias bem diferentes – eu não tive escolha – e quase ao mesmo tempo, uma nova luta na vida. Se a luta se impõe, então vamos a ela!
Nós é que nos orgulhamos de você.
Afinal, estudar Semiótica, matéria conceitual, abstrata, uma verdadeira pedreira que mistura os fundamentos da ciência cognitiva, lingüística, arte, ciência, epistemologia, entre outras, num conjunto hermético e harmonioso para constituir uma ciência, e ainda por cima em japonês... Só para os idealistas vibrantes, gente brilhante e que cultiva a simplicidade e o desapego, como você.
E, antes de tudo, bom filho, bom neto, bom irmão, amigo dos migos.Faz falta. Muita.
Eu, por exemplo, que, se de alguma maneira, no passado, cheguei a influir minimamente na escolha dessa matéria como seu objeto de estudos superiores, muitas vezes me vi obtuso diante dos conceitos de sua mestra e orientadora Santaella, muitas vezes compreendidos apenas (e a duras penas) depois de releituras e releituras.
Sua brilhante tese de mestrado na PUC, agraciada com louvor com o grau máximo, é uma demonstração da sua capacidade cognitiva superior e também uma aula de método e disciplina investigativa obre o Pensamento e as relações do Homem com o Homem, do Homem com Meio. Tem profundidade histórica e dialética.
Desculpe se apenas agora te dou uma opinião mais formal, sempre me cobraste algo além dos adjetivos. Mas agora, que estás tão longe da família, acho que essas palavras têm mais significância e calor.
Finalmente, permita-me que te diga, no país do ícone e do ideograma onde vives, fique bem atento, meu filho, aos sinais da vida, aos sinais adventícios, aqueles que marcam a própria existência da gente, o passar pelo mundo, as estações da vida.
E “... que fique claro que nossas reações à realidade, interações vivas e físicas com as materialidades das coisas e do outro, já se constituem em respostas sígnicas ao mundo, marcas materiais perceptíveis em maior ou menor grau que nosso existir histórico e social, circunstancial e singular vai deixando como pegadas, rastros de nossa existência”.
A solidariedade humana, a simpatia, a amizade são modalidades de energia poderosas. Tenho experimentado muito isso ultimamente da família e de amigos e me surpreendo ao ver como essas manifestações podem vir de onde as vezes menos se espera. Não é obviamente o caso deste post.
Muitos tentam, inclusive, efetivar de alguma maneira o seu gesto, indo além das palavras de conforto.
Transcrevo abaixo um testemunho do que digo, que recebi por email de um colega que é um profissional brilhante, um exemplo de pai e amigo como só ele sabe ser. Aquela pessoa que vale a pena ter conhecido, que faz a diferença.Obrigado.
Meu querido e grande amigo Daniel, Afinal, o que realmente está ocorrendo? Vc está doente mesmo? Olha, amigo, há cerca de três anos estive em coma por sete dias no hospital de Taguatinga-DF e durante a ausência do corpo eu cheguei a ouvir dos médicos que o meu câncer de pulmão já estava avançado e que eu teria que ser removido para o hospital de base em Brasília para o tratamento quimioterápico. Cheguei a ver as lágrimas rolarem do rosto do meu pai (hoje com 89 anos) e pressentir que de fato eu estava com uma doença grave. Mas o tempo passou e hoje percebo que de fato se eu estivesse com câncer eu já teria partido desta para melhor, ou seja, eu já teria desencarnado. Mas Deus me deu a oportunidade de continuar aqui na terra, onde tive oportunidade de conhecer novos amigos e me fortalecer na minha jornada. Informo a ti que agradeço a Deus por isto, principalmente por ter me dado a oportunidade de te conhecer. Quando falo conhecer é conhecer de verdade, pois o estimo muito e quero muito o seu bem. Tanto quero que te digo que se vc esta doente é pq Deus quis que isso ocorresse, pois esta é mais uma prova que vc terá de passar aqui nesta viagem que embarcamos juntos aqui na terra. Fique com Deus e continue iluminado como vc sempre foi. Um grande abraço, Tião
Oi Daniel, Não sei se isto ajuda, mas tenho um sobrinho que é médico no Hospital do Câncer em Barretos e tenho certeza que se vc quiser ir até lá, certamente ele o receberá de braços abertos e quem sabe pode ajudar de alguma forma na realização do seu tratamento. Valeu, Sebastião