O transtorno ansioso social, também conhecido como transtorno da ansiedade social, fobia social ou sociofobia, é uma síndrome ansiosa caracterizada pela Associação Psiquiátrica Americana por manifestações
de alarme, tensão nervosa e desconforto, desencadeadas pela
exposição à avaliação social — o que ocorre quando o portador precisa interagir
com outras pessoas, realizar desempenhos sob observação ou participar de
atividades sociais. Tudo isso ocorre até o ponto de interferir na maneira de
viver de quem a sofre.
As pessoas afetadas por essa patologia
compreendem que seus medos são irracionais, no entanto experimentam uma enorme
apreensão ao confrontarem situações socialmente temidas e não raramente fazem
de tudo para evitá-las. Durante as situações temidas, é frequentemente presente
nessas pessoas a sensação de que os outros as estão julgando e, enfim, tais
sujeitos não raramente temem ser reputados muito ansiosos, fracos ou estúpidos.
Por conta disso, tendem a se isolarem.
Eu, sociófobo crônico desde a infância
(chegava a me esconder debaixo da mesa quando chegavam visitas na casa de meus
pais), tenho por conta disso muitas vezes sido considerado mal-educado,
esquisito ou, no mínimo, irreverente. Se fosse rico, ou poderoso, talvez pudesse
ser considerado excêntrico ou original pelos bajuladores. Mas, depois destes
anos todos, já me acostumei com isso.
A partir do momento em que o homem
resolveu viver em grupos começaram a surgir os conflitos de comunicação, de
relacionamento interpessoal.
O comportamento humano sempre foi
analisado considerando-se sua infinita subjetividade, mas, sobretudo, pelo
padrão comportamental de disposição para a disputa, a concorrência e o
enfrentamento diante de diversas situações.
Brigamos pelo afeto, preferência ou
atenção de alguém, por uma posição privilegiada dentro de um círculo social ou
no local de trabalho. Por poder, posses, prestigio. Delimitamos território como
certos animais e brigamos por espaço social, físico e até por comida.
(Um
amigo, para comemorar o aniversário de 90 anos de sua mãe, que mora numa
pitoresca cidadezinha do sul do Brasil, contratou uma pianista para tocar na
recepção. Para seu desespero, quando anunciou que o jantar estava servido -
logo após autorizar o inicio do recital - o corre-corre e o alvoroço, o
tilintar de louças, copos e talheres, o burburinho entusiasmado abafaram
completamente o som das valsas e modinhas).
Embora grande parte das convenções
sociais exija algum grau de sacrifício da vontade individual, elas existem por
um motivo relevante, e, quebra-las, tanto pode constituir uma das maneiras de
se obter satisfação pessoal, como pode acarretar uma ruptura irreparável no
delicado tecido das relações sociais e interpessoais.
Não se pode negar que as convenções
sociais sejam uma instituição básica para a vida harmoniosa em sociedade. E
muitas vezes elas são utilizadas para se mensurar o grau de educação doméstica das
pessoas.
Os franceses cultuam isso quase que como
uma religião, à qual chamam de politesse.
Mas, entre eles, costuma-se “lamber” o prato, com uma fatia de pão, até
deixa-lo imaculadamente limpo, após uma refeição, coisa que no Brasil é
considerada grosseira. E a expressão “sair à francesa”, empregada por aqui com
o sentido de se deixar um ambiente social sem cumprimentar sequer os donos da
casa, não tem o menor fundamento no comportamento do povo francês, que
considera tal atitude uma imensa grosseria.
Já
acreditei em muitas mentiras, mas há uma à qual sempre fui imune: aquela que
celebra a juventude como uma época de rebeldia, de independência, de amor à
liberdade. Não dei crédito a essa patacoada nem mesmo quando, jovem eu próprio,
ela me lisonjeava. Bem ao contrário, desde cedo me impressionaram muito fundo,
na conduta de meus companheiros de geração, o espírito de rebanho, o temor do
isolamento, a subserviência à voz corrente, a ânsia de se sentir iguais e
aceitos pela maioria cínica e autoritária, a disposição de tudo ceder, de tudo
prostituir em troca de uma vaguinha de neófito no grupo dos sujeitos bacanas.
O
jovem, é verdade, rebela-se muitas vezes contra pais e professores, mas é
porque sabe que no fundo estão do seu lado e jamais revidarão suas agressões
com força total. A luta contra os pais é um teatrinho, um jogo de cartas
marcadas no qual um dos contendores luta para vencer e o outro para ajudá-lo a
vencer.
Muito
diferente é a situação do jovem ante os da sua geração, que não têm para com
ele as complacências do paternalismo. Longe de protegê-lo, essa massa
barulhenta e cínica recebe o novato com desprezo e hostilidade que lhe mostram,
desde logo, a necessidade de obedecer para não sucumbir. É dos companheiros de
geração que ele obtém a primeira experiência de um confronto com o poder, sem a mediação
daquela diferença de idade que dá direito a descontos e atenuações. É o reino
dos mais fortes, dos mais descarados, que se afirma com toda a sua crueza sobre
a fragilidade do recém-chegado, impondo-lhe provações e exigências antes de
aceitá-lo como membro da horda. A quantos ritos, a quantos protocolos, a
quantas humilhações não se submete o postulante, para escapar à perspectiva
aterrorizante da rejeição, do isolamento. Para não ser devolvido, impotente e
humilhado, aos braços da mãe, ele tem de ser aprovado num exame que lhe exige
menos coragem do que flexibilidade, capacidade de amoldar-se aos caprichos da
maioria - a supressão, em suma, da personalidade.
É
verdade que ele se submete a isso com prazer, com ânsia de apaixonado que tudo
fará em troca de um sorriso condescendente. A massa de companheiros de geração
representa, afinal, o mundo, o mundo grande no qual o adolescente, emergindo do
pequeno mundo doméstico, pede ingresso. E o ingresso custa caro. O candidato
deve, desde logo, aprender todo um vocabulário de palavras, de gestos, de
olhares, todo um código de senhas e símbolos: a mínima falha expõe ao ridículo,
e a regra do jogo é em geral implícita, devendo ser adivinhada antes de
conhecida, macaqueada antes de adivinhada. O modo de aprendizado é sempre a
imitação - literal, servil e sem questionamentos. O ingresso no mundo juvenil
dispara a toda velocidade o motor de todos os desvarios humanos: o desejo mimético de que
fala René Girard, onde o objeto não atrai por suas qualidades intrínsecas, mas
por ser simultaneamente desejado por um outro, que Girard denomina o mediador.
Não
é de espantar que o rito de ingresso no grupo, custando tão alto investimento
psicológico, termine por levar o jovem à completa exasperação impedindo-o,
simultaneamente, de despejar seu ressentimento de volta sobre o grupo mesmo,
objeto de amor que se sonega e por isto tem o dom de transfigurar cada impulso
de rancor em novo investimento amoroso. Para onde, então, se voltará o rancor,
senão para a direção menos perigosa? A família surge como o bode expiatório
providencial de todos os fracassos do jovem no seu rito de passagem. Se ele não
logra ser aceito no grupo, a última coisa que lhe há de ocorrer será atribuir a
culpa de sua situação à fatuidade e ao cinismo dos que o rejeitam. Numa cruel
inversão, a culpa de suas humilhações não será atribuída àqueles que se recusam
a aceitá-lo como homem, mas àqueles que o aceitam como criança. A família, que
tudo lhe deu, pagará pelas maldades da horda que tudo lhe exige.
Eis
a que se resume a famosa rebeldia do adolescente: amor ao mais forte que o
despreza, desprezo pelo mais fraco que o ama.
Todas
as mutações se dão na penumbra, na zona indistinta entre o ser e o não-ser: o
jovem, em trânsito entre o que já não é e o que não é ainda, é, por fatalidade,
inconsciente de si, de sua situação, das autorias e das culpas de quanto se
passa dentro e em torno dele. Seus julgamentos são quase sempre a inversão
completa da realidade. Eis o motivo pelo qual a juventude, desde que a covardia
dos adultos lhe deu autoridade para mandar e desmandar, esteve sempre na
vanguarda de todos os erros e perversidades do século: nazismo, fascismo,
comunismo, seitas pseudo-religiosas, consumo de drogas. São sempre os jovens
que estão um passo à frente na direção do pior.
Um
mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e
cansado, que já não tem futuro algum.
Olavo
de Carvalho, autor do texto acima, “O jovem Imbecil”, é filósofo, jornalista,
professor, escritor, ensaísta e um dos mais importantes intelectuais
brasileiros da atualidade. Possui dois websites: www.olavodecarvalho.org e www.seminariodefilosofia.org e é editor do site
de notícias MídiaSemMáscara (www.midiasemmascara.org).
É claro que além dos elementos desta
sórdida e cruel sociologia onde o jovem é vítima e algoz, tão corajosa e lucidamente
exposta por Olavo de Carvalho, como uma fratura no esqueleto de uma sociedade
onde o cinismo se impõe como uma instituição amoral que mascara a realidade ao
invés de revelar para buscar soluções, existem outros componentes.
O que não se leva em conta ao apontar
o dedo da culpa para o cruel relógio das impossibilidades é que adultos, infelizmente, não se
transformam prodigiosamente em seres perfeitos assim, de uma hora para a outra,
tão logo o curso de suas vidas os transportem para a condição de pai, de mãe,
impondo-lhes assim o dever sagrado e a responsabilidade de desempenhar da
melhor maneira possível estes papeis sociais.
Além disso, considere-se que cada Ser
é único, um microcosmo complexo a ser desvendado à medida que sua consciência
desperta. E, por isso mesmo, não existem regras nem fórmulas mágicas no
processo da educação, esta responsabilidade intransferível. É imprescindível neste processo que
nós, pais, nos auto-avaliemos, (o autoengano causa-nos a sensação de que fizemos
ou que fazemos o que podíamos e o que podemos), além de termos sempre em mente
que a luta não dura um dia somente; ela continua por tempo indeterminado, e o autoconhecimento
e a persistência serão os elementos que poderão assegurar melhor resultado.
As escolas não conseguem realizar o
trabalho tipicamente familiar, que requer proximidade, afetividade, carinho,
confiança, tempo e autoridade, que
não deve ser confundida com o autoritarismo
que atrofia a personalidade, contribuindo para a (de)formação de indivíduos
imaturos emocionalmente.É como se pais e filhos (e a meu ver
a consangüinidade não é condição sine qua
non nesta relação) jogassem um jogo no escuro cujas regras não estão
definidas e do qual não se tem tampouco experiência prévia.
Eu mesmo sou pai de quatro filhos
naturais e cada um deles é uma experiência única, singular. E com o advento da
psicologia reducionista Freudiana, da Viena
de finais do século XIX, toda a culpa pela
inaptidão, angústia e desajuste social passaram a ser colocados sobre os ombros
exclusivamente dos pais. Felizmente, os conceitos mais recentes (e mais
científicos a meu ver) de inteligência
emocional vêm relegando toda essa tralha edipiana sexualóide inventada ao lugar que ela merece, o
esquecimento generoso. Alias, acho que Freud tinha um perfil psicológico mais
para maníaco sexual que para livre pensador.
Sim, porque Freud inventou, e
não descobriu o seu conceito de
Complexo de Édipo, de família edipiana, que serve de base para seus postulados
de psicanálise. E que diferença estabelecer entre "inventar" e
"descobrir"? Segundo os dicionários, o primeiro termo denota a criação
de algo novo, que não existia previamente. Assim, se inventa as nanopartículas,
mas não o genoma do câncer. Já o segundo faz referência ao levantamento de um
véu que encobria algo pré-existente. Descobre-se aquele genoma, mas não as nanopartículas.
Que os pais influenciam os filhos é
uma conseqüência óbvia. Mas estudos desenvolvidos pela pesquisadora Anette
Roest, que procurou diferenciar, num período de dez anos as similaridades entre
pais e filhos na transmissão de valores, revelaram que os filhos não recebem
essa influência dos pais de maneira passiva, é uma relação recíproca. Que os
familiares, através da convivência, automaticamente influenciam uns aos outros,
em um sistema de reciprocidade que é fator de socialização. Isso sigifica que
não são exclusivamente os pais que moldam a personalidade dos filhos, sendo os
únicos responsáveis por seus êxitos e fracassos. E pelo fato de a família não
estar isolada da sociedade, os filhos também trazem contribuição de forma
independente.
Assistam o drama familiar psicológico
que se desenrola no filme Vidas Amargas
(East of Eden), a obra-prima dirigida pelo genial Elia Kazan, adaptação do
romance semi-biográfico de John Steinbeck e com o legendário e falecido ator
James Dean no papel principal. Lá encontrarão entrelaçados quase todos estes
elementos, sem maniqueísmos ingênuos, sem “bons” nem “maus”, simplesmente seres
humanos compartilhando suas angústias, equívocos e acertos nesta experiência
insólita e imprevisível que é a vida, na busca pela evolução.