Mostrando postagens com marcador educação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador educação. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de abril de 2012

11

O incrível e brilhante anel do homem que não tinha dedos

A Etimologia é a parte da Gramatica que estuda a origem e o significado das palavras através da análise dos elementos que as constituem. Em outras palavras, é o estudo da composição dos vocábulos e das regras de sua formação e evolução histórica. A palavra datilografia, por exemplo: do grego dáktylos, «dedo» + gráphein, «escrever» +-ia = “ação de escrever com os dedos”.
Há muitos anos eu conheci um homenzinho notável que amava a palavra escrita e desafiava ou parecia ignorar todos estes conceitos para dar lições de vida, pertinácia e superação. Mas, como parece que estou ficando velho, sentimental e cheio de recordações – algumas até interessantes, como esta - permitam-me um pouco de saudosismo de uma época recente, antes de falar brevemente deste homem que vivia para dar corpo e forma às palavras.

Nunca frequentei uma escola particular. E, se até o início da década de 70, estudar numa escola pública, no Brasil, podia ser considerado um privilégio conquistado por aprovação nos Exames de Admissão ao Ginásio (Língua Portuguesa e Matemática), estudar no Colégio Estadual Paes de Carvalho, em Belém, onde eu morava, era um privilégio para poucos, tal o nível de conhecimentos exigidos dos candidatos que se aventurassem nos duros exames dissertativos (nada de a-na-bu, bu-bu, pelo ra-bo do ta-tú) aplicados pelo estabelecimento fundado em 1841, hoje o segundo colégio mais antigo em funcionamento no Brasil, depois apenas do Pedro II, do Rio. 

O velho e imponente casarão da Praça da Bandeira mantém ainda hoje algumas características de outrora, como as escadarias separadas, uma para alunos, outra para alunas e uma terceira só para professores e funcionários. Mas os chamados “acordos de cooperação” MEC-USAID, que mudaram as bases e empobreceram o orçamento do então excelente ensino público do País, transferindo para o capital e para os empresários a responsabilidade da educação do cidadão brasileiro, minaram o que a escola tinha de melhor na sua finalidade, ou seja, a excelência de seu ensino, motivo de seu orgulho institucional.
Hoje, professores e alunos vivem de esmolas nas escolas públicas e as particlulares, com raras excessões, fingem que ensinam enquanto auferem lucros astronômicos... 

Dentre as inúmeras e enriquecedoras experiências vividas nesse ambiente de descobertas, uma, em especial, me tem recorrido à memória reiteradamente nesta fase de minha vida, como algo exemplar e emblemático da capacidade humana de superação e de valorização da existência diante de certas surpresas que a vida guarda pra gente. 

As gincanas promovidas pelo Centro Cívico eram realizadas no mês de junho na escola, e procurávamos a cada ano sempre apoiar de alguma forma o esforço das instituições filantrópicas de amparo ao idoso, aos órfãos, aos enfermos, carentes.

Naquele ano, eu e minha equipe tínhamos recebido, entre outras, a tarefa de recolher donativos para um asilo de portadores da enfermidade conhecida como Mal de Hansen, Lepra, Hanseníase, Morfeia, ou Mal de Lázaro, que é uma doença antiquíssima, infecciosa, contagiosa, há anos perfeitamente curável em seus estágios iniciais, causada pela bactéria conhecida como bacilo-de-hansen, que afeta os nervos, a pele e pode provocar incapacidade e deformidades. Nessa época costumava-se ainda isolar estes enfermos internando-os em asilos para tratamento em locais distantes das cidades, onde estariam sujeitos a todo tipo de constrangimento e discriminação.

A colônia ficava a cerca de 20 km da cidade e ocupava uma área equivalente a de um campo de futebol. Uma barreira de Jambeiros plantados em linha reta impedia que suas instalações fossem vistas facilmente da estrada. 

Havíamos chegado logo no inicio da tarde, tínhamos acabado de descarregar o caminhão de donativos e preparávamo-nos para partir, quando alguém veio nos avisar que a diretora do leprosário gostaria de nos receber antes de sairmos.

A diretora era uma médica infectologista alta e magra, de seus 55, 60 anos de idade, que falava com se estivesse com a boca cheia de bolinhas de gude e com um leve acento italiano, que nos recebeu sorridente em sua pequena sala, onde um daqueles retratos oficiais do então Presidente Garrastazu Médici, emoldurado e pendurado por detrás de sua escrivaninha, mirava o observador casual com um olhar frio e distante, quase cruel. Responsável pela Instituição há quase oito anos, como revelou, orgulhava-se de ter implantado o que chamava de “uma gestão conjunta”. Gabava-se de ter melhorado as condições de vida dos internos no leprosário e de ter desenvolvido programas de ressocialização com os pacientes curados. E, pela eloquência com que falava de sua rotina e pelo entusiasmo quase infantil que o brilho de seus olhinhos vivazes e saltitantes revelava, podia-se perceber a dedicação e o amor que tinha por seu trabalho.

Depois de alguns minutos conversando sobre o funcionamento do local, dentro dos quais ela providenciou para que fossemos servidos de refrigerantes, acompanhados por uma bela lata de Biscoitos Aymoré, fomos interrompidos por um leve toque na porta.

– Sim? - Perguntou a diretora, e pelo vão da porta entreaberta surgiu a cabeça grisalha de um homem moreno, de seus quarenta e poucos anos, que perguntou se podia entrar. Autorizado, o homem, franzino, dirigiu-nos um olhar de curiosidade seguido de algo que me pareceu um breve sorriso, pediu licença, discretamente, e caminhou até onde a médica estava sentada. Pude então observar em seu rosto as marcas inconfundíveis da doença. Viera avisar que os ofícios estavam prontos, aguardando pela assinatura da diretora, e perguntar se ela gostaria que ele os trouxesse. Ela disse-lhe que esperasse, pois havia ainda um documento a ser datilografado. Ele assentiu com a cabeça, agradeceu, voltou-se em direção à porta para deixar o aposento, e mal consegui disfarçar o susto quando notei que ele não tinha um único dedo nas mãos! Nas duas! Nem um coto residual, só as palmas!

O homem saiu da sala deixando atrás de si um silencio embaraçador, logo quebrado pelas palavras lentas e calculadas da médica: - A lepra não faz os dedos caírem – explicou professoral - mas, como ela atinge a pele e os nervos periféricos, o enfermo vai ter como que uma anestesia nas mãos e nos pés, o que o torna muito vulnerável. E assim ele estará exposto a sofrer uma lesão mais grave, como uma queimadura, não vai sentir dor, não vai cuidar e o machucado pode infeccionar, gangrenar e precisar ser amputado – concluiu.

Era evidente que ela tinha percebido a perturbação provocada em nosso espírito pelo inesperado da situação. Afinal, o mais velho do grupo tinha apenas dezesseis anos e ainda não tinha vivido o suficiente para enxergar determinadas realidades tão de perto.  Eu sentia a boca seca e tomei mais um gole de Grapette. Em seguida, como se lhe tivesse ocorrido uma grande ideia, a médica levantou-se, resoluta, pegou uma folha de manuscrito de cima de sua escrivaninha e, enquanto se dirigia à porta, convidou:

- Sigam-me, rapazes. Gostaria que vissem uma coisa muito especial, algo que guardarão para o resto da vida.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

0

A Ignorância e a discriminação são cúmplices do câncer

A redução sustentada das taxas de mortalidade geral do câncer se evidencia nos dados que dão conta de que cerca de 898.000 mortes pela doença foram evitadas entre 1990 e 2007, de acordo com as últimas estatísticas da American Cancer Society. No entanto, o relatório Cancer Statistics 2011, e a publicação especializada Cancer Facts & Figures 2011, revelaram que este progresso não tem beneficiado de forma igualitária todos os segmentos da população. Uma seção especial do relatório esclarece que as taxas de morte por câncer em indivíduos com menor grau de instrução são mais de duas vezes superiores as dos individuos com grau mais elevado de instrução, e que a detecção desta realidade poderia ter evitado 37% - ou 60.370 - das mortes prematuras por câncer que ocorreram em 2007, em pessoas com idades entre 25 e 64 anos.

A cada ano, a Sociedade Americana do Câncer projeta o número de novos casos de mortes por câncer esperados nos Estados Unidos no ano corrente, e compila os dados mais recentes sobre a incidência da doença, mortalidade e sobrevivência com base em dados de incidência do Instituto National do Cancer e demais órgãos de controle do estado.

Um total de 1.596.670 novos casos e 571.950 mortes por câncer são projetados para este ano nos EUA. As Taxas de incidência global de câncer entre os homens mantiveram-se estáveis ​​no período mais recente, após uma queda de 1,9% ao ano de 2001 a 2005; nas mulheres, as taxas de incidência têm diminuido em 0,6% anualmente, desde 1998.

As taxas de câncer em geral e de morte, que têm caído desde o início de 1990, continuaram a diminuir em todos os grupos raciais/étnicos, em homens e mulheres desde 1998, com exceção das mulheres de etnia índia, entre as quais as taxas permaneceram estáveis. Afroamericanos e hispânicos mostraram as maiores quedas anuais nas taxas de morte por câncer durante este período, 2,6% e 2,5%, respectivamente. As taxas de morte por câncer de pulmão declinaram significativamente em mulheres após um aumento contínuo desde 1930.

O Cancer Statistics 2011 é publicado on-line anualmente pelo CA: A Cancer Journal for Clinicians. Outros destaques do relatório incluem:

Entre os homens, o câncer de próstata, o de pulmão, brônquios e cólon representam mais da metade (cerca de 52%) de todos os cânceres diagnosticados. O de próstata responde sozinho por 29% (240.890) dos casos incidentes no sexo masculino.

OS três tipos mais comumente diagnosticados entre as mulheres também são os cânceres de mama, pulmão, brônquios e cólon, o que representa cerca de 53% dos casos de câncer estimados em mulheres. Isoladamente, só o câncer de mama responderá por cerca de 30% (230.480) de todos os novos casos esperados entre as mulheres.

A probabilidade de ser diagnosticado com um câncer invasivo é mais elevada para os homens (44%) que para as mulheres (38%). Estima-se que cerca de 571.950 norte-americanos vão morrer de câncer, correspondendo a mais de 1.500 mortes por dia.

A taxa de mortalidade por câncer de pulmão em mulheres finalmente começou a declinar, mais de uma década depois do início do declínio entre os homens. Este atraso é atribuido ao fato de as mulheres terem aderido mais tardiamente ao vício do tabagismo, entre as quais o hábito de fumar atingiu o apogeu 20 anos mais tarde em relação aos homens.

Rápidas quedas nas taxas de incidência do câncer colorretal em grande parte refletem os resultados das ações recentes de prevenção e triagem, que podem detectar e remover pólipos pré-cancerosos.

A taxa de mortalidade geral por câncer diminuiu 1,9% ao ano de 2001-2007 em homens e 1,5% em mulheres de 2002-2007, em comparação com o declínio menor de 1,5% ao ano no sexo masculino entre 1993-2001 e de 0,8% ao ano no sexo feminino, entre 1994-2002.

Os relatórios apresentam uma seção especial sobre o impacto da eliminação das disparidades sociais sobre o número de mortes por câncer. O nível de ensino é muitas vezes usado como um marcador de status socioeconômico. Em 2007, a mortalidade por câncer no segmento menos instruido da população foi 2,6 vezes maior do que entre os mais instruidos. Esta disparidade foi ainda maior para o câncer de pulmão, para o qual a taxa de mortalidade foi cinco vezes maior entre os menos escolarizados. As diferenças nas taxas de mortalidade por câncer de pulmão refletem um gradiente marcante na prevalência do tabagismo por nível de escolaridade: 31% dos homens com 12 ou menos anos de educação são fumantes, comparados com 12% dos graduados universitários e 5% dos homens com pós-graduação.

A seção especial também estimou o número de mortes potenciais por câncer prematuro que poderiam ter sido evitadas, na ausência de disparidades socioeconômicas e/ou raciais. Considerando que se todas as etnias, de todas as faixas socioeconomicas e etárias entre os 25-64 anos tivessem tido o mesmo tratamento que os brancos mais bem instruidos tiveram no período estudado, 60.370 mortes por câncer prematuro poderiam ter sido evitadas.

Os relatórios anuais tornaram-se ferramentas essenciais para os cientistas, especialistas em saúde pública e formuladores de políticas para avaliar a carga atual do câncer. Estas estimativas são algumas das estatísticas de câncer mais amplamente citadas no mundo.

O número esperado de novos casos de câncer e de mortes devem ser interpretados com cautela, pois estas estimativas são baseadas em modelos estatísticos e podem variar consideravelmente de ano para ano. Nem todas as mudanças nas tendências de câncer podem ser capturadas através de técnicas de modelagem e, por vezes, o modelo pode ser muito sensível às tendências recentes, resultando em sobre ou sub estimativas.

Apesar das limitações, as estimativas da American Cancer Society, do número de novos casos de câncer e de mortes no ano corrente fornecem estimativas razoavelmente precisas sobre a carga de novos casos de câncer e mortes nos Estados Unidos. Tais estimativas ajudarão nos esforços em curso para reduzir o impacto da doença na saúde pública.

Os norteamericanos possuem excelentes bancos de dados, que alimentam softwares de tratamento de estatísticas muito eficientes, que constituem ferramentas poderosas para o entendimento da evolução dos padrões de incidencia e distribuição do câncer, muito úteis na adoção de políticas de ações de saude publica, que devem, a meu ver, ser compartilhadas entre os povos que lutam contra a doença.

Traduzido e condensado de material publicado em Cancer Statistics 2011 @ CA: A Cancer Journal for Clinicians. Os interessados em ler o extenso relatório na íntegra podem clicar no link acima.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

0

Educação e família


Já acreditei em muitas mentiras, mas há uma à qual sempre fui imune: aquela que celebra a juventude como uma época de rebeldia, de independência, de amor à liberdade. Não dei crédito a essa patacoada nem mesmo quando, jovem eu próprio, ela me lisonjeava. Bem ao contrário, desde cedo me impressionaram muito fundo, na conduta de meus companheiros de geração, o espírito de rebanho, o temor do isolamento, a subserviência à voz corrente, a ânsia de se sentir iguais e aceitos pela maioria cínica e autoritária, a disposição de tudo ceder, de tudo prostituir em troca de uma vaguinha de neófito no grupo dos sujeitos bacanas.

O jovem, é verdade, rebela-se muitas vezes contra pais e professores, mas é porque sabe que no fundo estão do seu lado e jamais revidarão suas agressões com força total. A luta contra os pais é um teatrinho, um jogo de cartas marcadas no qual um dos contendores luta para vencer e o outro para ajudá-lo a vencer.

Muito diferente é a situação do jovem ante os da sua geração, que não têm para com ele as complacências do paternalismo. Longe de protegê-lo, essa massa barulhenta e cínica recebe o novato com desprezo e hostilidade que lhe mostram, desde logo, a necessidade de obedecer para não sucumbir. É dos companheiros de geração que ele obtém a primeira experiência de um confronto com o poder, sem a mediação daquela diferença de idade que dá direito a descontos e atenuações. É o reino dos mais fortes, dos mais descarados, que se afirma com toda a sua crueza sobre a fragilidade do recém-chegado, impondo-lhe provações e exigências antes de aceitá-lo como membro da horda. A quantos ritos, a quantos protocolos, a quantas humilhações não se submete o postulante, para escapar à perspectiva aterrorizante da rejeição, do isolamento. Para não ser devolvido, impotente e humilhado, aos braços da mãe, ele tem de ser aprovado num exame que lhe exige menos coragem do que flexibilidade, capacidade de amoldar-se aos caprichos da maioria - a supressão, em suma, da personalidade.

É verdade que ele se submete a isso com prazer, com ânsia de apaixonado que tudo fará em troca de um sorriso condescendente. A massa de companheiros de geração representa, afinal, o mundo, o mundo grande no qual o adolescente, emergindo do pequeno mundo doméstico, pede ingresso. E o ingresso custa caro. O candidato deve, desde logo, aprender todo um vocabulário de palavras, de gestos, de olhares, todo um código de senhas e símbolos: a mínima falha expõe ao ridículo, e a regra do jogo é em geral implícita, devendo ser adivinhada antes de conhecida, macaqueada antes de adivinhada. O modo de aprendizado é sempre a imitação - literal, servil e sem questionamentos. O ingresso no mundo juvenil dispara a toda velocidade o motor de todos os desvarios humanos: o desejo mimético de que fala René Girard, onde o objeto não atrai por suas qualidades intrínsecas, mas por ser simultaneamente desejado por um outro, que Girard denomina o mediador.

Não é de espantar que o rito de ingresso no grupo, custando tão alto investimento psicológico, termine por levar o jovem à completa exasperação impedindo-o, simultaneamente, de despejar seu ressentimento de volta sobre o grupo mesmo, objeto de amor que se sonega e por isto tem o dom de transfigurar cada impulso de rancor em novo investimento amoroso. Para onde, então, se voltará o rancor, senão para a direção menos perigosa? A família surge como o bode expiatório providencial de todos os fracassos do jovem no seu rito de passagem. Se ele não logra ser aceito no grupo, a última coisa que lhe há de ocorrer será atribuir a culpa de sua situação à fatuidade e ao cinismo dos que o rejeitam. Numa cruel inversão, a culpa de suas humilhações não será atribuída àqueles que se recusam a aceitá-lo como homem, mas àqueles que o aceitam como criança. A família, que tudo lhe deu, pagará pelas maldades da horda que tudo lhe exige. 

Eis a que se resume a famosa rebeldia do adolescente: amor ao mais forte que o despreza, desprezo pelo mais fraco que o ama.

Todas as mutações se dão na penumbra, na zona indistinta entre o ser e o não-ser: o jovem, em trânsito entre o que já não é e o que não é ainda, é, por fatalidade, inconsciente de si, de sua situação, das autorias e das culpas de quanto se passa dentro e em torno dele. Seus julgamentos são quase sempre a inversão completa da realidade. Eis o motivo pelo qual a juventude, desde que a covardia dos adultos lhe deu autoridade para mandar e desmandar, esteve sempre na vanguarda de todos os erros e perversidades do século: nazismo, fascismo, comunismo, seitas pseudo-religiosas, consumo de drogas. São sempre os jovens que estão um passo à frente na direção do pior.

Um mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e cansado, que já não tem futuro algum.
 Olavo de Carvalho, autor do texto acima, “O jovem Imbecil”, é filósofo, jornalista, professor, escritor, ensaísta e um dos mais importantes intelectuais brasileiros da atualidade. Possui dois websites: www.olavodecarvalho.org e www.seminariodefilosofia.org e é editor do site de notícias MídiaSemMáscara (www.midiasemmascara.org).


É claro que além dos elementos desta sórdida e cruel sociologia onde o jovem é vítima e algoz, tão corajosa e lucidamente exposta por Olavo de Carvalho, como uma fratura no esqueleto de uma sociedade onde o cinismo se impõe como uma instituição amoral que mascara a realidade ao invés de revelar para buscar soluções, existem outros componentes.
O que não se leva em conta ao apontar o dedo da culpa para o cruel relógio das impossibilidades é que adultos, infelizmente, não se transformam prodigiosamente em seres perfeitos assim, de uma hora para a outra, tão logo o curso de suas vidas os transportem para a condição de pai, de mãe, impondo-lhes assim o dever sagrado e a responsabilidade de desempenhar da melhor maneira possível estes papeis sociais.
Além disso, considere-se que cada Ser é único, um microcosmo complexo a ser desvendado à medida que sua consciência desperta. E, por isso mesmo, não existem regras nem fórmulas mágicas no processo da educação, esta responsabilidade intransferível. É imprescindível neste processo que nós, pais, nos auto-avaliemos, (o autoengano causa-nos a sensação de que fizemos ou que fazemos o que podíamos e o que podemos), além de termos sempre em mente que a luta não dura um dia somente; ela continua por tempo indeterminado, e o autoconhecimento e a persistência serão os elementos que poderão assegurar melhor resultado.
As escolas não conseguem realizar o trabalho tipicamente familiar, que requer proximidade, afetividade, carinho, confiança, tempo e autoridade, que não deve ser confundida com o autoritarismo que atrofia a personalidade, contribuindo para a (de)formação de indivíduos imaturos emocionalmente. É como se pais e filhos (e a meu ver a consangüinidade não é condição sine qua non nesta relação) jogassem um jogo no escuro cujas regras não estão definidas e do qual não se tem tampouco experiência prévia.
Eu mesmo sou pai de quatro filhos naturais e cada um deles é uma experiência única, singular. E com o advento da psicologia reducionista Freudiana, da Viena de finais do século XIX, toda a culpa pela inaptidão, angústia e desajuste social passaram a ser colocados sobre os ombros exclusivamente dos pais. Felizmente, os conceitos mais recentes (e mais científicos a meu ver) de inteligência emocional vêm relegando toda essa tralha edipiana sexualóide inventada ao lugar que ela merece, o esquecimento generoso. Alias, acho que Freud tinha um perfil psicológico mais para maníaco sexual que para livre pensador.
Sim, porque Freud inventou, e não descobriu o seu conceito de Complexo de Édipo, de família edipiana, que serve de base para seus postulados de psicanálise. E que diferença estabelecer entre "inventar" e "descobrir"? Segundo os dicionários, o primeiro termo denota a criação de algo novo, que não existia previamente. Assim, se inventa as nanopartículas, mas não o genoma do câncer. Já o segundo faz referência ao levantamento de um véu que encobria algo pré-existente. Descobre-se aquele genoma, mas não as nanopartículas.
Que os pais influenciam os filhos é uma conseqüência óbvia. Mas estudos desenvolvidos pela pesquisadora Anette Roest, que procurou diferenciar, num período de dez anos as similaridades entre pais e filhos na transmissão de valores, revelaram que os filhos não recebem essa influência dos pais de maneira passiva, é uma relação recíproca. Que os familiares, através da convivência, automaticamente influenciam uns aos outros, em um sistema de reciprocidade que é fator de socialização. Isso sigifica que não são exclusivamente os pais que moldam a personalidade dos filhos, sendo os únicos responsáveis por seus êxitos e fracassos. E pelo fato de a família não estar isolada da sociedade, os filhos também trazem contribuição de forma independente.
Assistam o drama familiar psicológico que se desenrola no filme Vidas Amargas (East of Eden), a obra-prima dirigida pelo genial Elia Kazan, adaptação do romance semi-biográfico de John Steinbeck e com o legendário e falecido ator James Dean no papel principal. Lá encontrarão entrelaçados quase todos estes elementos, sem maniqueísmos ingênuos, sem “bons” nem “maus”, simplesmente seres humanos compartilhando suas angústias, equívocos e acertos nesta experiência insólita e imprevisível que é a vida, na busca pela evolução.