Claro! Mas as coisas não são assim tão evidentes. Em 25 anos de job eu nunca havia tirado uma licença, não que me lembre. Nem por uma semana. Nem sou viciado em trabalho. Mas tenho que me readaptar.
Fiquei desde agosto em uma órbita improdutiva, compulsória, esperando o próximo ciclo de químio e o tempo passar rápido para que eu pudesse retomar logo minha vidinha, aquela rotina que sempre achei medíocre, da qual eu reclamava tanto e que só comecei a valorizar depois que perdi.
Retornei segunda-feira ao trabalho. Cara, as pessoas (e seus olhos, claro) estão por todos os lugares! Elevador do prédio onde moro, recepção. Olhos nos carros que passam...
Reencontro de colegas, alguns amigos. Festa dos olhos interrogativos, curiosos, indiscretos, hesitantes. Simpáticos, negros, profundos, desdenhadores, frios, sorridentes. Os que encaram, penalizados, culpados, calorosos, pressurosos, piedosos. Os que se escondem indecisos. Surpresos, arregalados, brilhantes, úmidos, castanhos...
Ah... Os olhos! Bem, é claro, tem todo o resto da anatomia humana... Mas os olhos, (puta merda!) os olhos são diferentes, têm vida própria, eles traem, avisam, apóiam, criticam, desprezam, fecham (simplesmente, às vezes prá sempre), indicam o caminho ou induzem ao erro por encantamento. Os melhores cúmplices que se pode ter!
“... desculpe-me a curiosidade, mas... só os da cabeça... caem...? – E eu, evitando os olhos - Ainda estou parece uma banana descascada, cai tudo, Chiquinha...
Entro na sala do escritório, ligo o PC e a loirinha no desktop continua me olhando nos olhos e dizendo, eternamente solícita, “I know how you must feel, Daniel...”, do seu balão de HQ. Parece até que tudo ficou parado no tempo, em suspensão, esperando por um novo ciclo de vida. Só parece, não se preocupem, eu sei... .
Diferente de voltar das férias, aos poucos saio do estupor pós-inércia e tento reinicialisar o cérebro, espiritualmente mais leve. Tomo um café. Sinto-me mais ligado. A vida tá aí. É como sair de um transe.
Nunca antes pensei que perguntaria, mas, por gentileza, cadê a minha rotina?
