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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

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Exemplar: Justiça do Ceará determina que Estado forneça medicamento de alto custo a portadora de câncer de mama

O medicamento conhecido como Herceptin pode reduzir em até um terço o número de mortes por câncer de mama, caso seja administrado em pacientes que tenham sido submetidas previamente à intervenção cirúrgica e à quimioterapia, segundo estudo publicado na revista médica "The Lancet".
O trabalho comparou os resultados obtidos com 1.703 mulheres que foram submetidas ao remédio durante um ou dois anos, após terem feito os tratamentos contra o câncer de mama, com os de outras 1.698 pacientes que fizeram o mesmo procedimento inicial, mas não receberam o Herceptin.
Uma equipe de pesquisadores acompanhou as mulheres por dois anos. Ao final do período, 59 mulheres do primeiro grupo haviam morrido, contra 90 do segundo grupo, o que equivale a uma redução de 34% no índice de mortalidade.

A Justiça cearense determinou que o estado forneça o medicamento Herceptin à professora R.F.N.M., portadora de câncer de mama. A decisão foi da 1ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Ceará e confirmou a liminar proferida pelo Juízo da 1ª Vara da Fazenda Pública.

Consta nos autos que R.F.N.M., residente em Quixadá, foi diagnosticada com o tipo de câncer denominado de neoplasia maligna de mama reincidente. Embora tenha se submetido a procedimento cirúrgico no Hospital do Câncer, em Fortaleza, o médico especialista que a acompanha prescreveu o medicamento Herceptin para auxiliar o tratamento.

Por se tratar de remédio de elevado custo, a paciente alegou que não tem condições financeiras para comprá-lo. Por esse motivo, ajuizou ação ordinária, com pedido de antecipação de tutela, requerendo que o estado fornecesse gratuitamente o remédio.

Em 22 de outubro de 2010, o juiz Auxiliar Irandes Bastos Sales, respondendo pela 1ª Vara da Fazenda Pública de Fortaleza, concedeu liminar e determinou que o Estado fornecesse, no prazo de 48 horas, o remédio requerido, na quantidade e pelo tempo necessário ao tratamento prescrito. Em caso de descumprimento da decisão, fixou multa diária de cinco salários mínimos.

Inconformado, o Estado recorreu com o objetivo de reformar a decisão. Argumentou que a interferência do Poder Judiciário ofendeu o princípio constitucional da separação dos poderes e violou a diretriz da reserva do possível.

Ao relatar o processo nessa última segunda-feira, o desembargador Fernando Luiz Ximenes Rocha destacou que a “interferência no presente caso é perfeitamente legítima e serve para restabelecer a integridade da ordem jurídica violada pelo Estado, o que afasta a alegação de malferimento do princípio constitucional da separação dos poderes”.

Sobre a reserva do possível, o desembargador ressaltou que “não se está exigindo qualquer prestação descabida do Estado, mas, tão-somente, o fornecimento de medicamento indispensável à saúde da paciente, desprovida de recursos financeiros para tanto”.

Esquema do mecanismo de atuação do anticorpo monoclonal Trastuzumab, conhecido comercialmente como Herceptin. Fonte:Genentech.
Com esse posicionamento, a 1ª Câmara Cível negou provimento ao recurso e manteve a decisão de 1º Grau, ou seja, o Estado tem que custear o tratamento com o Herceptin.

Fonte: TJ/Ceará

quinta-feira, 3 de março de 2011

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Ceará também faz transplante de medula

Na manhã desta terça-feira, 1º de março, mais um paciente foi operado pela equipe do hemocentro de Fortaleza (Hemoce) e do Hospital Universitário Walter Cantídio,  onde foi realizado o 26º transplante autólogo de medula óssea no Ceará - aquele em que a pessoa recebe células-tronco sadias da própria medula como forma de tratamento para alguns tipos de câncer.
A beneficiada, uma mulher de 22 anos, portadora de linfoma de Hodgkin, está internada em um leito isolado no Hospital das Clínicas, onde  deve permanecer pelas próximas duas semanas antes de receber alta.

O
 procedimento é simples: primeiro, o sangue do paciente passa por uma máquina de aférese, que separa e concentra as células-tronco, que são congeladas em nitrogênio líquido. Em seguida o paciente é submetido a uma quimioterapia especial para eliminar todas as células cancerosas. Por último, as células-tronco são descongeladas e reinfundidas (como se fosse uma transfusão de sangue) no paciente e passarão a recolonizar o sangue, diferenciando-se em todos os tipos de células. que o compõem. 

Até hoje, todas as outras 25 cirurgias foram consideradas um sucesso pela equipe médica. O primeiro transplante autólogo do Sistema Único de Saúde no Ceará aconteceu no dia 26 de setembro de 2008 e a maioria dos pacientes já retornou às suas atividades normais, tendo alcançado a cura para o câncer através do procedimento. O resultado incentiva ainda mais a continuidade deste trabalho, que tem ajudado a salvar vidas.

A medula óssea é um líquido que fica armazenado dentro do "tutano" de alguns ossos do nosso corpo e que tem como função produzir as células do sangue. Quando um paciente tem algum tipo de doença no sangue (leucemias, linfomas, alguns tipos de anemias e outras doenças congênitas) e precisa de um transplante de medula, ele pode se submeter a dois tipos de transplante: o autólogo, quando ele recebe células sadias retiradas da própria medula; ou o homólogo, quando precisa receber células da medula de outra pessoa. Para isso, ele pode recorrer:

·       à compatibilidade entre familiares, especialmente irmãos;
·       à rede de Bancos de Sangue de Cordão Umbilical e Placentário,  a BrasilCord;
·       ao Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea, o Redome.

Esse último é a forma mais fácil de qualquer pessoa poder ajudar os pacientes que precisam de um transplante. Hoje, o Estado do Ceará reúne mais de 85 mil cearenses cadastrados no Redome.

O cadastro de doadores de medula óssea é uma listagem feita em todos os hemocentros do país e reúne as pessoas dispostas a doar. Para participar, basta que o voluntário compareça ao hemocentro de sua região. Ele precisa estar saudável, ter entre 18 e 55 anos e apresentar documento de identificação com foto, como carteira de identidade, de motoristas ou de trabalho. O candidato preenche uma ficha com seus dados pessoais e colhe uma amostra de 10 ml de sangue, como aquelas amostras que se colhe em laboratório para exames de sangue. A partir daí, o voluntário já está cadastrado!

As informações armazenadas no Redome são pesquisadas na necessidade de um transplante. Os dados do paciente que precisa receber a medula são cruzados com os dos doadores que estão no Redome, para tentar identificar compatibilidade entre eles. A chance de encontrar uma medula compatível é de apenas 1 em 100 mil. Por isso, quanto mais doadores cadastrados no registro, mais chances essas pessoas têm de sobreviver.

Clique aqui para acessar uma relação completa dos hemocentros do Brasil.

Fonte:  Governo do Ceará  

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

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Crateús, a vida boa e saudável de antigamente


Já era noite quando chegamos a Crateús, por volta das 18h30min. Meus sogros já nos aguardavam no local de sempre, na chamada “Rodoviária dos Pobres”, uma parada antes da rodoviária oficial. Um momento muito esperado: abraços, beijos, a emoção e a alegria do reencontro.
Já no carro, nós atrás e eles na frente, conversamos animadamente no caminho pra casa, sempre atentos ao transito. Aos 88 anos, “seu” Antônio insiste em continuar dirigindo, apesar da insegurança dos neuróticos, da miopia dos insensíveis e da covardia dos chatos de plantão, que se apressam em se agarrar obstinadamente àquele apoio no carro a que chamam de “puta que pariu”, mal entram em seu Fiat Siena azul. Paciência!
(Eu, por princípio, pertenço àquele reduzido grupo de pessoas que são incapazes de dar palpite quando os outros estão dirigindo. Nessa viagem mesmo, por acaso, assisti impassível ao meu cunhado avançar impávido e solenemente - naquela inconsciência perigosa que às vezes se apossa da gente - um sinal vermelho com o Pajero ze-ra-do de sua mulher, na maior moral, buzinando, num cruzamento supermovimentado de Fortaleza, enquanto Sandrinha e a proprietária quase vítima, emudecidas pelo terror e pela incredulidade, se borravam intimamente).
Praticamente nada mudou na casa e na rotina do casal, desde março do ano passado. A posição da mobília, sempre limpa e arrumada, os horários disso e daquilo, os lençóis e toalhas com monograma bordado e suavemente aromatizados, a deliciosa comidinha sertaneja. Aliás, este é um capítulo à parte na pacata rotina dos Cavalcante, donde fazem parte ainda os doces caseiros, a tapioquinha e os queijos, com destaque para os soberbos chefs-d’œuvre de Dona Djanira: a Cabidela de Galinha Caipira, o Pernil de Carneiro Assado com Batatas, a indizível Paçoca de Carne-de-sol e o divino Doce de Jaca. Até já sugeri - com muito tato, evidentemente - que eles coloquem uma balança na copa pra fazer a pesagem dos hóspedes ao chegarem e antes de partirem.
A televisão, com sua programação insidiosa e perigosamente alienante, não faz parte da rotina. A vida pulsa dentro do peito e do lado de fora das paredes. São as cadeiras de embalo, colocadas na calçada todas as noites, depois do jantar, que fazem parte do momento mais esperado do dia. É sentado nelas que se fica por dentro de tudo o que acontece e do que está por acontecer na cidade, que se dá boas gargalhadas e que se é solidário reciprocamente. É na calçada que a vida desfila com naturalidade, na prosa animada com vizinhos e amigos.
A única novidade que percebi, além do parque de diversões que se instala todos os anos nesta época bem em frente à casa deles, na praça, é que agora “seu” Antônio tem apenas que soprar em seu apito novo (comprado exclusivamente para esta finalidade), e levantar a mão para indicar com os dedos o número de “espetinhos-de-gato” que Haroldo, o churrasqueiro, deve trazer do outro lado da rua.
Eles chegam a ficar meses sem ir ao 2º pavimento da casa, onde os quatro quartos, outrora ocupados pelo casal e pelos seis filhos que foram casando, casando, estão hoje praticamente abandonados. A casa foi ficando vazia e cada vez maior com o passar do tempo.
A 354 km da capital, a tranquila Crateús, cidade dos Sertões Cearenses e polo da região centro-oeste, hoje com mais de 72.000 habitantes, já teve muita importância na história política e econômica do Estado. 100% da área de seu Município estão no semiárido, caracterizado por grande variabilidade anual na quantidade de chuvas e balanço hídrico, o que o faz oscilar entre as secas e as enchentes dos rios, que ano transbordam, ano secam. A temperatura varia entre os 20º C e os 35º C.
Um dos impactos mais significativos dessa realidade climática na sociedade tem sido a emigração da população para os grandes centros urbanos. Mais recentemente, os mais jovens também se transferem para a capital, Fortaleza, em busca de emprego e de formação universitária, o que tem contribuído para aumentar a média de idade da população.
Por isso mesmo, Crateús é o lugar ideal para se rever velhos amigos do passado. Isto, se você nasceu e cresceu lá, evidentemente, como Sandrinha. É comovente como os olhos dela brilham e às vezes umedecem de emoção toda vez que reencontra alguém querido, que não via há muito tempo, tal a deliciosa lembrança dos momentos evocados, esquecidos lá na infância, ou na adolescência.
E...o que fazer em Crateús? Bem, além de comer, beber e dormir muito bem, você pode ainda namorar, alugar uma moto pra dar umas voltas, ir pescar, fazer caminhadas,  andar de bicicleta, tomar banho em açudes como o “Realejo” e o “Carnaubal”, cortar o cabelo no Deusin ou mesmo ir a Missa na simpática Igreja do Senhor do Bonfim, mesmo não sendo católico, um ritual vibrante, com cantorias de arrepiar, de tão belas e espontâneas. O lugar é ideal pra quem quer descansar, atualizar a leitura, ouvir música, meditar, relaxar. Que tal? Muito natural?
 A única coisa triste em Crateús é o momento da despedida. Foi onde passei o melhor Natal destes últimos anos. Ficamos seis dias nessa vida mansa, na companhia tranquila deles. E agora acho que foi pouco, muito pouco.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

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Férias bem diferentes e um retorno meio preguiçoso

Férias é sair da rotina. E estas foram as mais movimentadas que já tive.
Tem gente que prefere, principalmente os mais jovens e cheios de energia, quebrar a rotina do dia-a-dia de forma mais agitada: praias ensolaradas diariamente, esportes aquáticos, longos passeios de buggy nas dunas com muita adrenalina, baladas, restaurantes da moda, compras em “novos” shoppings e toda a gama quase infinita de atividades lúdicas que as praias e as capitais do nordeste brasileiro oferecem. Chega-se até a acordar mais cedo pra se ter mais tempo disponível.
Para outros, como eu, que moro numa estufa com temperatura anual variando entre os 36 e os 40 graus e já passei dos 50, pra variar basta uma temporada num lugar friozinho, melhor ainda com uma bela paisagem serrana, cheiro de mato e boa música pairando no ar, um bom livro. Cozinhar algo especial, se deslumbrar com o espetáculo do sol se pondo em outra latitude, acordar e ir dormir mais tarde, quiçá uma bebidinha de leve em boa companhia. Assim transcorreram minhas férias do ano passado, em Ouro Preto, com Sandrinha: sossego, sombra e vinho tinto seco.
Desta vez as coisas foram bem diferentes, mais agitadas, mas não menos agradáveis. Talvez um pouco daquele cansaço prazeroso ao qual alude Sêneca quando indaga: “Não existem igualmente prazeres corporais que se reforçam com uma sensação dolorosa, como quando uma pessoa se vira sobre o lado que ainda não está fatigado e se agita sem cessar procurando uma posição melhor?”. A fuga da rotina, da mesmice. A mudança de lugar. O prazer da variação? Em um dos trechos que fizemos, ainda no microônibus que nos conduzia, o Guia já oferecia novos pacotes de passeios e as pessoas se apressavam em reservar seus lugares, sem se darem conta de que mal teriam tempo de conhecerem e desfrutarem do paraíso de Jericoacoara, nosso destino inicial.
Desta vez, além do deslocamento aéreo Manaus-Fortaleza-Manaus, rodamos dezenas de horas por quase 3.000 km pelas estradas do nordeste em deslocamentos a Crateús/CE, Natal/RN, Praia da Pipa/RN, Genipabu/RN, Jericoacoara/CE e Quixadá/CE.
Fiquei vários dias, indolentemente, tomando água de côco, picolé de cajá e de mangaba, comendo camarão e lagosta nas praias da Ponta Negra e da Pipa, na praia do Futuro e na praia de Jericoacoara, enquanto esperava Sandrinha adquirir “aquele” tom dourado na pele.
Em Crateús, cortei o cabelo lá no Deusin, matei a saudade da deliciosa paçoca de dona Djanira, minha sogra, dos papos com “seu” Antônio, minha sede com cajuína e me emocionei com nosso singelo Natal em família. Em Natal, fizemos passeios inesquecíveis e conhecemos os melhores restaurantes ao lado de Hugo e Rejane, nossos cúmplices potiguares, companheiros de aventuras no R. G. do Norte, visitei o maior cajueiro do mundo e coloquei um palmo de língua pra fora escalando a duna de Genipabu pra apreciar o pôr-do-sol lá de cima – lindo!
Ah! – as compras! – Ia esquecendo das compras! Tivemos que comprar mais duas mochilas grandes (uma delas assinada pelo talentoso artesão Expedito Seleiro) e uma valise pra acomodar o estrago em nossas economias. Fomos com dois volumes e voltamos com oito! Uma orgia: telas da incrível arte naif nordestina (inclusive um Militão dos Santos, um Fé Córdula e dois Edilson Araújo), algum artesanato, um caleidoscópio, alguma roupa e presentes. E ainda havia os queijos, a nata e os maravilhosos potes de doces caseiros de dona Djanira. Até uma linda rede em algodão em cor cultivada, natural! Mas, milagrosamente, não fizemos dívidas.
Passamos 27 dias fora de casa. Depois de uns 20 dias curtindo e perambulando começou a bater, como sempre, um certo banzo. Lembram do filme “E.T. - O extraterrestre”, quando o pequeno alienígena apontava com aquele dedão feio para as estrelas e dizia “caaaasa, caaaasa” ? Pois é, a gente começa a lembrar da nossa cama, do nosso quarto, do nosso canto, a saudade de tudo começa a se insinuar de vagarinho e a gente começa a imaginar como ficarão as telas na parede, onde vai colocar isso e aquilo, e também quanto vai pagar de excesso de bagagem. Aí começa uma espécie de retorno mental: a gente fica dividido entre a saudade dos novos lugares que conheceu, das pessoas queridas que vai deixar e a saudade dos que esperam o nosso regresso.

Mas no final, como no filme do E.T., tudo contribuiu pra dar tudo certo e a vidinha retoma seu curso.
Muito feliz por voltar ao nosso convívio aqui no blog. Aos poucos, aqui e ali, irei postando algumas das melhores impressões que tive nestas férias e algumas fotos. Agradeço a todos os amigos e amigas que deixaram mensagens estimulantes nos comentários. Carpe Diem.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

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Natal na terra do Repente e do Cordel


Não é por acaso que o Estado do Ceará recebe milhões de turistas por ano, de todos os cantos do mundo. Praias ensolaradas e paisagens encantadoras, gastronomia exuberante, povo acolhedor, artesanato interessante, ritmos sensuais...a lista é imensa.
Estamos com as passagens compradas. Este ano Sandrinha e eu decidimos passar o Natal com os pais dela em Crateús, uma cidadezinha tranqüila e ensolarada do Sertão cearense, no Nordeste brasileiro, onde eles nasceram, cresceram, construíram uma bela história de vida e onde quase todo mundo se trata pelo primeiro nome. Andar com os dois pelas ruas é testemunhar um interminável festival de efusivos cumprimentos e saudações. Todos se conhecem.
Ele, hoje aposentado, foi o dentista de metade da população. Dona Djanira e Dr. Antônio vivem praticamente como viviam em meados do século passado, mas com as comodidades do mundo atual. Seguem uma rotina tranqüila, saudável, flexível e eletiva, quebrada apenas pelas efemérides municipais, pelas eventuais visitas dos filhos e netos ou quando simplesmente decidem quebrá-la, prá variar. Desfrutam de uma qualidade de vida muito superior a da maioria daqueles que migram para a capital em busca de “ser alguém na vida”, diplomas, destaque, certificados, cargos públicos e, paradoxalmente, acabam se perdendo no anonimato estressante e massificador das grandes cidades.
Mas cearense é assim mesmo, andarilho. Não se enrola nem perde a parada. Arretado e avesso a formalismos fuleiros traz no consciente coletivo certa mania de grandeza que ele mesmo é o primeiro a satirizar. E ele tem muito do que se orgulhar. Chegam a ser proverbiais o bom-humor e a presença de espírito na cultura riquíssima desse povo alegre e gozador mesmo diante das adversidades.  
Em Crateús até as obrigações as mais banais têm outro brilho. Ir ao barbeiro, por exemplo. Cortar o cabelo nunca foi algo propriamente agradável pra mim. Faz parte da rotina dos tais cuidados estéticos básicos masculinos, coisa que recuperei depois da fase careca do período da quimioterapia. E foi lá em Crateús, em março, que voltei a freqüentar o barbeiro. O incrível, o único, o inimitável, o inigualável, o insuspeitável, ELE, simplesmente - “Deusin”.
Pode até parecer exagero, mas estou deixando o cabelo crescer desde minha última viagem a Rondônia, em setembro. Não vejo a hora, imaginem, de chegar dezembro para poder sentar de novo na velha poltrona de barbeiro do “Deusin”, caba danado de bom e velho profissional da tesoura da cidade (nos dois sentidos:real e figurado) e me entregar ao prazer lúdico de ficar só escutando os causos, a crônica espirituosa dos fatos (que ele “aumenta, mas não inventa”) e dos personagens populares do cotidiano em Crateús, que ele retrata com um entusiasmo quase infantil e no mais genuíno dialeto cearês. Uma verdadeira viagem pelo imaginário nordestino.
 E tudo recheado com aquelas deliciosas expressões burlescas tipo Vaudeville (termo adulterado do francês, “voix de ville”, voz da cidade) que só a despojada alma cearense cria, fabula e pronuncia corretamente, como “mano véi”(velho amigo), “vixe!”, “pimbada”, “xoxota”, “gota serena”, “fuleiro”, “caba”, “macho”, “abestado”, “arretado”, “danado de bom”, “mijar”, “nos trinques”, “baitola”, “botar boneco” (ser inconveniente), “numsivexe” (não se apresse) e por aí vai, prá citar só aquelas que estou lembrando agora.
Confesso que estou ansioso. Da última vez foi tão bom que quase me “mijei” e acabei fazendo cabelo e barba! - Uma “dilícia”! - como diria Marcos, meu cunhado.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

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Lagoa do Cauipe - CE

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Preferi deixar as fotos falarem primeiro. Este pedacinho do Ceará está a 20 minutos de carro de Fortaleza. Você escolhe: água doce, da lagoa, ou salgada, do mar. Os dois ambientes alí, um ao lado do outro. Mas, se eu fosse você, eu aproveitaria de tudo. Devo essa visita ao Marcos, que, além de nos acolher em seu apartamento em Fortaleza, em março, ainda nos presenteou com uma visita a este lugar magnífico.
Aqui não existem agulhas, enfermeiras, exames, quimioterapia, expectativas, prognósticos, corticóide, incertezas, nem efeitos colaterais. Se nos entregarmos, a Natureza nos mergulha na mais profunda Paz e nos faz esquecer o lado obscuro das coisas.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

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Canoa Quebrada II

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Ó aí, Carolyne, tudo isso e muito mais vocês vão viver nesse paraíso. Clima de aventura, de mistérios trazidos do mar pelo vento em sussurros, de romance…Pra onde a gente se vira tem uma paisagem, um cenário, ou uma poesia-cenário ora em verso ora em prosa para ser sorvida pelos sentidos ao mesmo tempo encantados e atônitos com esta soberba  dádiva da natureza. A cor ocre das falésias contribui com seu tom quente na paleta de cores de Canoa Quebrada, equilibrando os tons frios do   azul do céu e do verde do mar em seu eterno encontro, ao mesmo tempo cartesiano e poético.

E ainda tem a brisa, o cheiro de mar e da magia de qualquer coisa vaga que paira no ar, que inalamos com prazer sublime como um perfume raro e exótico que nos anima e também nos enternece. Algo que não se poderia descrever com a frieza das palavras, sem ser sacrílego. Impotente, recorro a Fernando Pessoa, que paece ter sido definitivo em muitas das coisas sobre as quais meditou e plasmou com arte:

Navegar é Preciso

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito desta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo
e a minha alma a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.
(Fernando Pessoa)
Sim, navegar é preciso, mas, se não der, ficar à beira mar em Canoa Quebrada de vez em quando……
Pra se visitar a dois, com alguém muito, muito especial.

quarta-feira, 31 de março de 2010

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Canoa Quebrada

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Um paraíso, um delírio para os sentidos no litoral atlântico cearense. Para os olhos e para o paladar, então...

Praias paradisíacas sob um céu de um azul incrível; passeios de jangada, de bug pelas dunas de açúcar. A gastronomia é um capítulo à parte onde reinam peixes deliciosos, camarões enormes, caranguejos e lagostas - frutos do mar recém-colhidos e preparados segundo a tradicional cozinha cearense, acompanhados - se preferir o colorido local - de melasca, coquetel de cachaça com mel de caju ou de cana, limão e muito gelo. Destaque para a inimaginável moqueca de arraia e para o pargo assado servido na telha. Simplesmente duca!!

Centenas de pousadas simpáticas e bem-transadas.

À noite, na charmosa Broadway (antiga “Dragão do Mar”), principal rua da cidade,  com seu calçamento em pedra portuguesa, ponto de encontro e coração do comércio e do entretenimento em Canoa Quebrada, a “negada”  se reúne nos bares, cafés e restaurantes maneiros ou percorre as lojas, que ficam abertas até as 22:00.

Baixa estação. Imaginem a loucura na alta. Inesquecível!